quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Cadê Pipão?


Desde o dia em que e vi um peru rodopiando feito louco depois de tomar umas pingas fiquei traumatizada.

Não sabia que para ser morto o pobre do bicho era obrigado a se embebedar. Quanta covardia. A ave inocente ficava em estado deplorável!

Tadinha da infeliz, não merecia tamanho abuso.

Nunca gostei de ver ninguém passar nos limites com bebidas. Dava-me um medo, uma agonia.

E assistir de camarote um animal ser obrigado a consumir bebida alcoólica era demais para mim.

Sai correndo para não ver mais aquela cena deplorável.

Coitado do pobre animal passaria por toda aquela agonia para depois morrer!

Meu sentimento de grande defensora dos animais fervia em meu ser. Achei naquele momento a raça humana “uns sem coração”,” uns monstros desalmados.”

E não adiantava argumentos para convenser-me o contrário.

A menina atrevida achava que estava com a razão. E com isso bradava, xingava e chorava de tanto que defendia o pobre peru .

Jurei com todo fervor que a partir daquele dia nunca mais comeria peru em minha vida.

Mas e os outros animais?

Se a menina pensasse melhor não comeria nenhum deles, todos tinham o mesmo fim trágico: a panela, e os nossos estômagos. É a lei da sobrevivência.

E mesmo no próprio reino animal não é nada diferente: é bicho engolindo bicho.

Numa manhã de novembro Pimpão chegou. Achei-o magricela, triste. Precisava de um bom trato e alimentação.

Toda cuidadosa me achego. O peru arisco foge. Não quer coversa. Faz uma arruaça danada e se encolhe no fundo do quintal.

Pacientemente consigo com o passar dos dias dar comida no bico de Pimpão. Vibro com tal vitória. O peru finalmente me aceitara.

Porém, no fundo de min’alma sabia qual seria o fim trágico de Pimpão.

As festas de final do ano se aproximavam e o fim de Pão, infelizmente seria a panela.

A ave engordava a olhos vistos. Seus glu glus eram cada vez mais fortes.

A ave se empinava faceira e eu corria atrás da danada pelo quintal afora. Meu riso se misturava com os glu glu glus de Pipão.

Armava-se uma trovoada daquelas. As nuvens escuras tomavam conta do céu.

Não gostava de trovoadas. Quando elas apareciam ficava quieta rezando baixinho para que meu Anjo de Guarda me protegesse e eu não morresse atingida por aqueles raios medonhos.

Chegava a ficar debaixo da cama enrolada em cobertores, suando em bicas para não ver o clarão dos relâmpagos.

Para não escutar o barulho dos trovões colocava com força as mãos nos ouvidos que as orelhas ficavam pregadas e avermelhadas pela força que fazia.

Nunca vi tanto apavoramento numa pessoa só. Valei-me meu Santo Onofre!

A tempestade se aproximava e a hora fatídica de Pipão também.

Deixei o medo de lado e corri desembestada para o quintal. Num canto e amuado, Pipão me olhava desconfiado.

Corri tentando agarrá-lo. O bicho pareceu me estranhar. Correu feito doido num glu glu aterrorizante.

Bem no fundo do quintal tinha um tanque feito de cimento que na escassez de água era cheio para suprir as necessidades da casa.

Não pensei duas vezes. Na primeira oportunidade agarrei Pipão e o joguei no tanque vazio.

Naquela maluquice me descuidei, e acabei dentro do tanque como uma sapa esparramada.

Cai feio, estrepei-me.

Pipão ficou enfezado com minha presença doida e estropiada.

A ave havia machucado uma das perninhas e ndefesa, quis me atacar.

Um trovão se fez ouvir.

Arrepiei-me todinha!

Aos berros gritei por socorro.

A chuva começou a cair forte.

Ninguém me acudia.

Pipão molhado me lançava um olhar desafiador.

Eu tentava conter sua estranha ira conversando com voz tremula e doce:
“Pipãozinho, me ajude, seja bonzinho pelo amor de Deu,eu só quero salvar tu, meu bichinho lindo!”

A ave abre o bico.

Deixei a docilidade e enfrentei o animal tremendo tal qual vara verde.

“Seu bicho feio, pode vir”... eu vou é torcer este seu bico, e arrancar suas penas.

Nesse entrave cruel, surge enviado pelo céu; meu pai, meu herói, meu salvador.

Aliviada, tremendo de frio e medo cai em seus braços acolhedores.

À noite fui acometida por uma febre que me fazia delirar e pedir clemência por Pipão.

Só sei de uma coisa; ninguém até hoje me disse o que fizeram com a tal ave.

Meu pai jura que o bicho morreu de pneumonia.

Será?





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