sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

domingo, 18 de dezembro de 2011

Onde já se viu Papai Noel negro?





Genaro anda cansado. Precisa relaxar. Mas as preocupações consomem os miolos do jegue solidário. Esteve envolvido na polêmica sobre a construção de Belo Vale e a aprovação do novo Código Florestal. Tudo isso lhe tirara o sossego.

As discussões foram tantas que o nosso ambientalista quer paz. Mas a tristeza da fala do tamanduá paraense Zezão não lhe sai da cabeça. O bicho comedor de insetos pensa na morte dos bichos da região, das plantas e até dos índios que não querem de jeito maneira suas terras inundadas.

Dizem os especialistas que a construção da usina de Belo Monte é uma obra eficiente, que tem que ser feita. E o Brasil precisa de energia, e qualquer nova unidade geradora de energia causa impacto ambiental.

O que um jegue nordestino pode fazer diante de tantas especulações?

O que lhe dói o coração é saber que para tudo na vida paga-se um preço. E às vezes esse preço é alto. Sente-se de pés e mãos atadas. Um sentimento de impotência lhe aperreia seu ser impetuoso.

Cabisbaixo, levanta-se da rede a tempo de ver a arruaça em frente à casa de Didão.

Aturdido vai ao encontro do amigo que impaciente reclama em bom tom:

- Digo e repito: eu não quero ser Papai Noel coisa nenhuma. Isso é intriga de Cavalão. O peste do jegue que se acha cavalo é um fofoqueiro sem vergonha. Ele que não atravesse o meu caminho.

Genaro nunca vira seu amigo sapão tão nervoso. O rosto do sapo-maestro está vermelho de raiva enquanto seu corpo de cururu parece aumentar de tamanho.

As filhinhas gêmeas sapinhas do Cururuzão raivoso empalidecem ao ver o inchaço do pai.

Em coro gritam aterrorizadas:

- Socorroooo, acudammm, nosso paizinho vai explodirrrr!

Tácita, a sapinha pintora e mãe zelosa ,abraçando-as diz em voz suave:

- Minhas meninas, não fiquem assim, o papai só está um pouco nervoso. Logo ele voltará ao normal. Vão para casa. A mamãe promete que cuidará bem do papai de vocês.

Obedientes, e um tanto assustadas, as sapinhas entram em casa.

Discretamente Tácita vai até ao marido e lhe sussurra:

- Esqueceu que é hipertenso queridooo? Quer ter um troço e me deixar viúva?

Didão se recompõe. Genaro com seu jeito brincalhão abraça o amigo com carinho. Dá-lhe, amigavelmente um tapinha nas costas e fala:

- Quanta brabeza, Mestre cururu! Não ligue para o falatório maldoso de Cavalão. É isso que aquele safado de meia tigela quer.

Afinada, a passarinha advogada ,surge toda embonecada. Genaro até torce o pescoço para olhar a esguia passarinha passar.

Risonha, perfumada e de batom vermelho, Afinada se aproxima.

Galante, Genaro se insinua:

- Meritíssima, tu sabes o meu fraco por mulher de batom vermelho. E esse perfume... hum...deixa-me alucinado! Não faças isso comigo. Estou de pernas bambas.

Afinada pousa no ombro do jegue conquistador. Dá-lhe uma bicada forte. Genaro zurra baixinho. Safado rodopia com a passarinha que fica zonza e cai no chão.

Raivosamente, a passarinha mete o bico fortemente em uma das patas de Genaro que zurra alto.

- Pode morder minha princesa, nunca vi dor tão gostosa!

Didão resolve interromper o jogo de conquista de Genaro.

- Rapaz, se aquiete, até a Meritíssima doutora tu canta? Respeite a viuvez da moça. Tu era o melhor amigo do finado, lembra? Controle esse seu fogo, jegue safadão! E fique sabendo fui eu quem mandei chamar nossa amiga. Oxê tem cabimento?

Séria, Afinada chama Didão para uma conversa particular em sua casa.

A multidão se dispersa. Genaro sabe que abusou com suas investidas espontâneas de grande conquistador. Mas, o problema fora o bendito batom vermelho...

Decidido, entra na casa de Didão. Cavalheiro, pede desculpas à passarinha que prontamente as aceita.

A reunião na casa de Didão foi demorada. A escolha do bicho que seria o Papai Noel fica para o dia seguinte.

Democraticamente, os animais votaram em seus candidatos.

Cavalão, nervoso, xinga em voz alta:

- Seus bandos de animais fedorentos de uma figa, vocês nem sequer lembraram de colocar meu nome. Eu vou me vingar. Ahhh se vou! Vão rezando, viu cambada?

A votação se encerra.

Depois de uma hora Afinada anuncia o vencedor:

- O nosso Noel vai ser Pretim o nosso jegue tição!

Cavalão exaspera-se:

- Isso é marmelada...! Onde já se viu Papai Noel preto?

Genaro se contém. Sua vontade é encher a cara de Cavalão de socos.

Mas Genaro não quer sujar suas mãos com criatura tão insignificante. Não vale a pena. O importante é a popularidade do seu amigo.

Com seu jeito simples o jegue outrora tímido e desajeitado ganhara a simpatia da bicharada.

Na véspera de Natal sentado num carro de boi e vestido de verde e amarelo lá ia o Noé nordestino.

Por onde passava o jegue tição exibia com orgulho sua negritude bonita tão presente nas ruas do Brasil.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Meu pedido a Deus na Noite de Natal.





Emburrei-me. Meu cenho se franziu. De nariz empinado retruquei:

- Papai Noel existe sim seus caras de chulé.

A meninada debocha da menina que acredita que o Papai Noel lhe trará mais presentes neste Natal.

- Bobona, o teu Papai Noel não existe mais mesmo. Pode esperar a noite inteirinha que ele não vem. Esqueceu que não tem casa nem família?

Enfureci-me. Voei nos cabelos de Maria Sardenta, a menina grandalhona e com fama de valente.

A “brutamonte” não tinha papas na língua. E, a menina ousada, ferida no mais fundo de sua alma não conseguia conter sua revolta. Tinha que dar uma lição na monstra e faladeira dos infernos.

Rolamos no chão enlameado pelas chuvas dos últimos dias. Viramos moleques de barro dando espetáculo para a meninada que fazia uma arruaça daquelas.

Apesar de minha magreleza aparente, sabia me defender das unhadas e “coques” atrapalhados da menina- gigante.

Ágil, grudei-me ás costas da sardenta e lhe dei uma mordida no pescoço gordo. A fortona deu um berro. Dei um pulo e corri sem destino.

Queria sumir. Ir embora, encontrar minha casa, minha mãe, meu pai e meus irmãos.

Uma dor vinda de não sei onde tomou conta de mim.

Suja de lama me encolhi debaixo de uma árvore num terreno baldio amontoado de mato e lixo.

Senti-me um animal que acabou de se separar de sua família.

Abracei-me e chorei.

Na minha cabeça passa um filme que me aperta o coração.

Era manhã. Acordei com gritos desesperados e cheios de dor vindos do quarto de meus pais.

Aturdida coloquei meu travesseiro entre os ouvidos para abafar aqueles gritos que eu não queria ouvir.

Depois veio um silêncio inquieto e longo.

Descalça, e de camisola, levantei-me levando comigo meu travesseiro.

Arrastando-o fui conduzida a casa de minha tia.

Desse dia em diante meus natais não mais existiram com a minha família.

O meu Papai Noel bem que se esforçou, mas não conseguiu mais mentir a sua não presença em minha vida.

Saio debaixo daquela árvore que me deu afeto silencioso.

Ando a passos largos. Preciso tomar banho. Ficar bonita e cheirosa para a noite que se aproximava.

E essa noite era uma noite especial. Era a noite de Natal!

Abro um sorriso e grito para mim, para o céu, para Deus: “Só por hoje Paizinho do céu traz mesmo que de brincadeirinha o papai, a mamãe e meus irmãozinhos para mim. Faz eu acreditar que isso, essa brincadeirinha é de verdade só um tiquinho, por favor”!

Há uma interrogação em mim.

Olho o céu mais uma vez e complemento minha conversa com o Senhor do Universo.

“Paizinho do céu, eu aceito só sonhar... viu?”